sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Diretor do Greenpeace diz que falta autonomia ao Ibama


O diretor de políticas públicas do Greenpeace, Sérgio Leitão, afirmou que, apesar de ser um órgão de presença nacional, falta autonomia ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).

"O presidente do Ibama, apesar de nomeado pelo presidente da República, tem que ter autonomia suficiente para dizer não para o presidente, para qualquer cidadão ou empresário. Se esse papel não fica claro, esse órgão é instrumento do uso do governante de plantão. Falta autonomia ao Ibama."

Segundo ele, o instituto nunca foi um órgão de defesa da sociedade na questão ambiental, mas sim um correio de transmissão dos interesses do governo.

"Enquanto você não tiver o Ibama com o papel de ser uma voz de defesa da legislação ambiental e representando os interesses da sociedade, e tendo o poder de dizer não ao governante de plantão, ele nunca vai cumprir realmente com seus objetivos."

Leitão afirmou que a gestão atual do Ibama faz uma manifestação "muito explícita" em relação à necessidade de criar vias rápidas para aprovar as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). "O Ibama ser rápido, deveria ser para tudo, mas nos preocupa o fato de você querer fazer isso para viabilizar um desejo que é do presidente da República."

O diretor disse ainda que o órgão nunca recebeu a estruturação necessária para fazer seu trabalho. "Um exemplo: o Ibama só consegue executar 2% das multas que ele aplica. O órgão que fiscaliza, mas não executa aquilo que fiscaliza, então ele está fazendo de conta que fiscaliza."

Segundo ele, o instituto não tem procuradores suficientes no país e nem fiscais. "Ele consegue agir de forma tópica."

Leitão ainda defendeu a independência entre o Ibama e o Ministério do Meio Ambiente. "O Ibama é maior que o ministério, mas o ministério tem a função de supervisionar o órgão."

O representante do Greenpeace afirmou que, apesar das críticas ao Ibama, reconhece que é um órgão de presença nacional. "Ele faz o papel de unificar o cuidado do meio ambiente na área federal, que é uma coisa fundamental."

Fonte: Folha Online

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Desmate faz nuvem "seca" proliferar na Amazônia


Um estudo que monitorou os tipos de nuvens que cobrem a floresta amazônica mostra que o desmatamento parece estar causando tanto alterações na terra quanto no céu. Usando imagens de satélites e dados obtidos por balões meteorológicos, cientistas brasileiros e norte-americanos comprovaram a teoria de que a derrubada de árvores favorece a formação de nuvens "rasas", em contraposição a nuvens "profundas", mais chuvosas.

A conclusão ocorreu após análise de imagens e informações de Rondônia. O novo estudo ajuda a explicar por que o desmatamento faz a floresta ficar mais seca e corrobora com os estudos que preveem a conversão da Amazônia em savana.

"No momento em que temos uma floresta que retém bastante água, temos um ciclo da água, um ciclo de energia. Quando retiramos a floresta e a cobertura vegetal, mudamos esse ciclo. Certamente vai se criar outro cenário climático na região", afirma o meteorologista Luiz Augusto Machado, um dos autores do estudo. Ele é pesquisador do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

O trabalho foi publicado ontem na revista "PNAS", da Academia Nacional de Ciências dos EUA. O climatologista do Inpe Carlos Nobre, que não participou da pesquisa, diz que "uma generalização destes resultados vai na direção de apoiar a hipótese de savanização". Mesmo não sendo possível afirmar ainda que isso vale para toda a Amazônia, Nobre diz que os resultados "são fisicamente consistentes e indicam que as chuvas poderiam diminuir com o aumento do desmatamento".

Segundo Machado, a brasileira Elen Cutrim foi, em 1995, uma das primeiras a descrever esse fato de forma empírica e artesanal. "Agora, comprovamos com uma longa série de dados o estudo dela", disse.

Rafael Bras, da Universidade da Califórnia em Irvine, coautor do estudo, explicou o fenômeno em e-mail para a Folha. Segundo ele, nuvens rasas sobre desmatamentos ocorrem por mudanças na convecção, o movimento de massa de ar por diferença de calor --mesmo princípio físico que faz um balão de ar quente subir.

Oceano verde

"Se a região de desmatamento aumentar, a intensidade desta circulação pode diminuir e, mais importante, ficar mais seca e limitar o desenvolvimento de precipitação sobre a floresta", diz Bras. "No artigo, nós chamamos isso de "efeito do oceano verde".

Para ele, a floresta funciona como um oceano fornecendo vapor d'água para alimentar nuvens profundas. "Se o "oceano" desaparecer, o vapor d'água, a energia e a precipitação também desaparecem", diz.

Jingfeng Wang, coautor do estudo ligado ao MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), diz que o tamanho e forma da terra desmatada influenciam na possibilidade de recuperação da floresta. "O que não sabemos é quanto desmatamento é demais para que o "oceano verde" entre em colapso e suma para sempre", diz.

Enio Pereira de Souza, professor da Universidade Federal de Campina Grande, diz que o estudo confirma resultados de pesquisa que ele realizou há dez anos. Ele é ex-colaborador de Nilton Rennó, da Universidade de Michigan, um dos autores do estudo na "PNAS".

Souza conta que, na época, os estudos que indicavam o aumento das nuvens rasas sobre regiões desmatadas não eram muito aceitos por falta de provas. Segundo ele, sempre se deu mais importância às nuvens profundas. Mas agora, diz, o mapeamento das nuvens rasas se tornou "central na compreensão de todo esse mecanismo ligado à troca de energia entre a superfície e a atmosfera e como isso se relaciona com o clima global e eventos extremos de precipitação".

Fonte: AFRA BALAZINA da Folha de S.Paulo

Mudança na chuva já ocorre na área do arco de desmatamento na Amazônia


"Na época de chuva, chove o dia todo e, na época de seca, chove todos os dias", diz a piada corrente sobre o clima da Amazônia. As mudanças vistas na floresta, porém, podem acabar fazendo com que esse trocadilho perca o significado. Segundo o meteorologista Luiz Augusto Machado, do Inpe, em muitos lugares do chamado arco do desmatamento (no sul e no leste da Amazônia) chuvas já não são tão constantes.

"Do ponto de vista climático, a região do arco de desflorestamento já apresenta uma característica de clima de savana, isto é, com períodos de seca e chuva bem marcados e com o período de seca com muitos dias sem chuva", afirma.

Segundo ele, ainda não é possível dizer o que tem mais peso na savanização --se a mudança climática ou o desmatamento. "É muito difícil separar essas duas componentes."

Ainda há controvérsia sobre a savanização da Amazônia. O meteorologista Peter Cox já previu que o colapso da floresta poderia ocorrer em 2050. Mas, neste mês, outro trabalho afirma que ela pode ser menos vulnerável ao aquecimento global do que se temia. O estudo diz que, mesmo com redução nas chuvas, haveria umidade para sustentar uma floresta.

Fonte: AFRA BALAZINA da Folha de S.Paulo

Cientistas norte-americanos desenvolvem técnica para medição de emissões de carbono


Os métodos para medir as emissões de dióxido de carbono e a forma como o solo e as plantas se comportam em relação aos gases que causam o aquecimento global serão melhorados a partir de uma pesquisa apresentada na segunda-feira (16), pela Universidade de Michigan, nos EUA.

"Queremos saber como evoluirão as fontes de carbono, e da única forma que poderemos conduzir a mudança climática é com informação científica", disse Anna Michalak na reunião anual, em Chicago, da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, em inglês).

Cientistas desenvolveram métodos mais eficazes da medição de emissões
Michalak desenvolveu uma técnica que usa os dados disponíveis para compreender a variação entre o carbono encontrado na Terra há 50 anos e os níveis atuais, denominado "modelo geo-estatístico inverso".

Este método divide o planeta em regiões pequenas e examina quanto dióxido de carbono deve ter sido emitido em cada região para chegar às concentrações nos pontos de onde foram tiradas amostras atmosféricas.

"Se vamos nos adaptar à mudança climática, precisamos da capacidade para prever qual será essa mudança", disse Michalak, professora no Departamento de Engenharia Civil e Ambiental, no Departamento de Ciências Atmosféricas, Oceânicas e Espaciais da Universidade de Michigan.

A pesquisadora informou que "uma das grandes questões para nós é como evoluem as fontes de carbono. Tudo isto aponta à previsão e à administração delas."

Fonte: Terra, da Efe em Washington

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Bloco de gelo maior que Havaí se desprende da Antártida


Um bloco de gelo de 14 mil km², maior que a ilha do Havaí, se desprendeu da Plataforma de Gelo Wilkins, na península antártica, como "consequência do aquecimento global", informou nesta terça-feira o Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC), na Espanha. Os icebergs gigantes nos quais este bloco de gelo se fragmentou começam a se espalhar pelo Oceano Austral.

Uma equipe de pesquisadores do CSIC analisa desde o último domingo, a bordo de uma embarcação de pesquisa oceanográfica, o impacto do fenômeno sobre o ecossistema do Mar de Bellingshausen. A equipe científica também presenciou como a frente de gelo do Mar de Bellingshausen retrocedia 550 km em duas semanas.

Os cientistas disseram que as temperaturas de água são extraordinariamente quentes nesta região. Segundo os pesquisadores, o desprendimento e a fragmentação do enorme bloco de gelo produzirá o conseqüente aumento do nível do mar.

Nos últimos 50 anos a península antártica experimentou o maior aumento de temperatura registrado no planeta: 0,5 grau centígrado por década.

Fonte: Terra, aquecimento global

ONU pede que países do G20 destinem 1% do PIB para ações ambientais


A ONU (Organização das Nações Unidas) pediu nesta nesta segunda-feira (16), na abertura de um fórum em Nairóbi (Quênia), um "New Deal ecológico mundial" contra a crise financeira, energética e alimentar, que seria financiado pelo G20 (grupo que reúne representantes de países ricos e dos principais emergentes) --a verba viria de 1% do PIB (Produto Interno Bruto) dessas nações nos próximos dois anos.

Uma centena de ministros e mais de 1.000 de delegados de 140 países participam na reunião do conselho de administração do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que acontece até sexta-feira.

"O G20 deveria considerar estas propostas em seu próximo encontro em Londres, em abril, e ajudar a garantir um acordo global contra a mudança climática em dezembro, em Copenhague", afirma o Pnuma, em um estudo publicado na abertura de seu fórum mundial em Nairóbi.

"Reativar a economia mundial é essencial, mas algumas medidas centradas neste único objetivo não garantirão um êxito duradouro", afirma o comunicado.

"A menos que sejam abordados os outros grandes desafios, como a redução das emissões de gases de efeito estufa, a proteção dos ecossistemas e dos recursos de água, e a redução da pobreza, as medidas não impedirão futuras crises", diz.

Os países emergentes do G20, como Brasil, China, Índia e África do Sul, também deveriam atuar na medida do possível, destaca o Pnuma.

"Não se trata apenas de colocar em prática uma economia mais verde", destaca o programa da ONU, "e sim de responder também a ameaças iminentes como o aquecimento global, a insegurança energética, a falta crescente de água doce, a deterioração dos ecossistemas e sobretudo a pobreza, que piora."

Fonte: France Presse, em Nairóbi

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Ártico "deixará de existir" em duas décadas, diz grupo


O atestado de óbito do Ártico está assinado. Nas próximas duas décadas, a região, pelo menos na forma como ela é conhecida hoje, deixará de existir.

Por causa do aquecimento global, uma reação em cadeia já é percebida todos os anos na região, afirmaram especialistas em ciência polar reunidos ontem em Chicago, na 175ª Reunião Anual da AAAS (Associação Americana para o Avanço da Ciência). Nada indica, dizem eles, que se trate de um mero ciclo passageiro. A temperatura na região norte do globo pode aumentar em até 7º C até o meio deste século.

"Teremos um verão sem gelo no Ártico em 2030 ou antes disso", calcula Mark Serreze, da Universidade de Colorado (Boulder). Segundo o pesquisador, o que tem acontecido recentemente em toda a área já pode ser explicado pela ciência.

Enquanto o ar próximo à superfície marinha aquece, causando o derretimento da camada de gelo sobre o mar --e também sobre a terra--, o oceano Atlântico, que também está mais quente, tem jogado esse calor para o norte.

A consequência é que esquenta tanto por cima quanto por baixo, explica Serreze. E isso é que tem causado a diminuição do gelo em toda a região, com números recordes nos últimos verões principalmente.

Com menos gelo, a preocupação com uma certa ocupação da região ártica também deve aumentar, disse Serreze durante sua conferência.

Para ele, pode aumentar não apenas a navegação em toda a área --e nos últimos anos algumas rotas antes bloqueadas por gelo ficaram navegáveis-- como a exploração de petróleo. E, sobre isso, também existem vários projetos em curso, principalmente nos Estados Unidos.

Todo cuidado é importante, disse o cientista, porque na verdade o "Ártico está mais quente em todas as estações do ano, não apenas no verão".

A questão, se passa pelo problema do urso-polar e de toda a fauna, é muito mais ampla que isso, disse Serreze. "Já temos problema de erosão costeira em algumas zonas. Sem gelo, o vento movimenta mais a água."

Ciclo de carbono

A mudança de comportamento registrada em todo o Ártico é tão crítica, na visão do pesquisador, que o ciclo de carbono também pode ser drasticamente alterado.

Com o calor, a tendência é que toda a matéria orgânica congelada no solo do Ártico libere o carbono para a atmosfera. "Toda a região que antes ficava coberta de gelo está sendo exposta dez dias antes do previsto e ficando sem gelo até nove dias depois do esperado", disse na conferência Matt Sturm, do Laboratório de Pesquisa e Engenharia de Regiões Frias do Exército dos EUA.

Segundo o especialista, essa alteração tem significados importantes para a tundra ártica, ecossistema formado por uma vegetação bastante rasteira, alimentada principalmente pela água do degelo.

"O que está ocorrendo é um aumento da quantidade de vegetação arbustiva na tundra, por causa do aquecimento", afirma Sturm. Segundo ele, além dessa mudança de vegetação, existe outra em andamento por motivo idêntico.

A probalidade de uma mesma área da floresta boreal queimar aumentou em mais de 30%, disse o especialista. O resultado dessas queimadas, e do aumento de matéria vegetal sobre toda a região ártica, também vai alterar o ciclo da carbono, segundo Sturm.

O pesquisador, por morar no Alasca, tem também outra preocupação. "Todas essas mudanças afetam o ecossistema, mas também alteram a vida das pessoas que moram no Ártico." Existem aproximadamente 4 milhões de pessoas que vivem na região hoje.

Fonte: EDUARDO GERAQUE da Folha de S.Paulo, em Chicago